A notícia de que o SUS passou a oferecer cerca de 100 mil teleatendimentos mensais de saúde mental voltados a mulheres em situação de violência e a mães atípicas é, antes de tudo, um reconhecimento tardio de uma realidade que muitas famílias brasileiras já conheciam de perto: o sofrimento psíquico decorrente da violência doméstica e a sobrecarga emocional enfrentada por quem cuida, sozinha ou não, de filhos com deficiência ou condições que exigem cuidados contínuos. Ampliar o acesso remoto a esse tipo de atendimento é um passo relevante, mas que só terá efeito duradouro se vier acompanhado de estrutura territorial, continuidade do cuidado e avaliação séria de resultados.

Mulheres em situação de violência frequentemente enfrentam barreiras concretas para buscar ajuda: medo de retaliação, dependência financeira, dificuldade de deslocamento e, em muitos casos, a necessidade de conciliar essa busca com a criação dos filhos. O teleatendimento reduz algumas dessas barreiras, especialmente a logística, mas não substitui o acolhimento presencial quando o risco é imediato, nem a articulação com delegacias especializadas, Justiça e rede de assistência social. Saúde mental por telefone ou vídeo pode ser porta de entrada, não pode ser o único caminho.
O mesmo raciocínio vale para mães atípicas, expressão que descreve mulheres que criam filhos com autismo, síndromes raras ou outras condições que demandam acompanhamento multidisciplinar permanente. Essa rotina, muitas vezes solitária, cobra um preço emocional alto, agravado pela falta de rede de apoio, pela dificuldade de acesso a terapias especializadas e, em não poucos casos, pelo abandono paterno. Reconhecer essa população como prioridade dentro da política de saúde mental do SUS é acertado; falta agora garantir que o atendimento remoto não vire um substituto barato para serviços presenciais que essas famílias já deveriam ter, como CAPS, terapia ocupacional e suporte psicopedagógico.
Nando Pinheiro 22321 vai combater a violência doméstica
Estrutura, continuidade e avaliação
Um número de teleatendimentos mensais diz pouco sobre qualidade se não vier acompanhado de indicadores de continuidade do cuidado, taxa de encaminhamento para serviços presenciais e tempo de espera. Saúde mental não se resolve em uma única consulta; exige acompanhamento longitudinal, muitas vezes por anos. Por isso, a ampliação do teleatendimento deve ser tratada como componente de uma rede maior, e não como política isolada capaz de, por si só, dar conta de um problema estrutural que envolve violência doméstica, desamparo de cuidadoras e insuficiência histórica de investimento em saúde mental no país.
Parte essencial dessa solução passa pela contratação, por parte das autoridades competentes, de psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e demais profissionais qualificados e formados especificamente para lidar com trauma, violência de gênero e cuidado de crianças atípicas. Diagnóstico correto, planejamento de rede assistencial e execução técnica dependem de equipes capacitadas e de fiscalização baseada em evidências, não de boas intenções ou de metas numéricas anunciadas sem lastro operacional. Sem profissionais em número suficiente e sem supervisão técnica constante, qualquer ampliação de atendimento corre o risco de virar estatística vazia.

Nesse mesmo espírito de cuidado em saúde pública, chama atenção outra iniciativa recente: a ampliação da visita estendida em unidades de terapia intensiva, que fortalece a presença da família durante o tratamento de pacientes internados. Embora trate de um contexto distinto — o acompanhamento hospitalar em UTIs —, a medida converge com o princípio de que a presença familiar e o suporte emocional são parte do tratamento, não um acessório. Famílias mais presentes tendem a colaborar com a recuperação do paciente e reduzem o isolamento que agrava quadros de ansiedade e depressão, tanto do internado quanto de seus cuidadores.
Nando Pinheiro 22321 se preocupa com as mulheres
O papel da fiscalização estadual
Dentro das competências que cabem a um mandato estadual, o caminho não é prometer execução direta de serviços que dependem do Executivo, mas cobrar, por meio de requerimentos, audiências públicas e participação em comissões de saúde, informações claras sobre como a rede estadual de atenção psicossocial dialoga com esse programa federal de teleatendimento. Cabe fiscalizar se os CAPS estaduais têm capacidade de receber encaminhamentos vindos do atendimento remoto, se há convênios adequados com municípios e se o orçamento destinado à saúde mental é suficiente para sustentar, na ponta, o que é anunciado a distância.
Também é papel legislativo discutir o orçamento estadual e propor emendas, dentro das regras aplicáveis, para reforçar a rede de saúde mental voltada a mulheres em situação de violência e a famílias com crianças atípicas, sempre respeitando a reserva de iniciativa do Executivo sobre a estrutura administrativa dos serviços. Fiscalizar contratos, exigir transparência em indicadores e acompanhar a execução orçamentária são instrumentos legítimos e necessários para que uma política anunciada com bons números se traduza em atendimento efetivo, contínuo e humano para quem mais precisa.
Ao final, o que está em jogo não é apenas a quantidade de atendimentos oferecidos, mas a qualidade do cuidado que chega até mulheres feridas por violência e mães que carregam, muitas vezes sozinhas, rotinas exigentes de cuidado. Política pública de saúde mental só cumpre sua função quando é acompanhada de perto, avaliada com rigor técnico e sustentada por profissionais preparados — não quando se limita a um anúncio de números mensais.
Perguntas frequentes
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